terça-feira, 8 de março de 2016

O acrônimo do peixe segundo Agostinho




Mas destas cinco palavras gregas, as quais são Ἰησοῦς Xριστός θεοῦ υἱός σωτήρ, o que é em português ["em latim", no original] Jesus Cristo de Deus Filho Salvador, se as primeiras letras reúnes, resultará ἰχθύς, isto é, “peixe”, termo com que misticamente é entendido “Cristo”, uma vez que no abismo desta condição mortal, como na profundeza das águas, ele pôde estar vivo, isto é, sem pecado.

Horum autem graecorum quinque verborum, quae sunt, Ἰησοῦς Xριστός θεοῦ υἱός σωτήρ quod est latine Iesus Christus Dei Filius Salvator, si primas litteras iungas, erit ἰχθύς id est Piscis, in quo nomine mystice intellegitur Christus, eo quod in huius mortalitatis abysso velut in aquarum profunditate vivus, hoc est sine peccato, esse potuerit.

(Agostinho - Cidade de Deus 1, XVIII, 23)

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Todo judeu do século I d.C. queria impor a Lei sobre todo mundo ou odiava todos os não-judeus?

Cesar Rios

Você conhece aquela imagem que pintam dos judeus (e costumam generalizar mesmo, falando sobre “os judeus”) dos tempos de Jesus como sendo incorrigivelmente arredios com todos os seres humanos não-judeus? Dizem que só respeitavam quem tentasse cumprir a lei à risca, que queriam impor as leis da Torah e da tradição oral sobre todos os que se aproximassem deles, essas coisas. Particularmente, já escutei esse tipo de coisa em muitos lugares. O problema básico reside no fato de que as pessoas que dizem isso constroem um argumento circular. Deduzem essa informação a partir da leitura do Novo Testamento e, em seguida, aplicam essa informação para interpretar o Novo Testamento. Não percebem que “os judeus” não estão descritos no Novo Testamento como se este fosse um tratado etnográfico. Não percebem que é preciso olhar para o contexto mais amplo e para outras fontes antes de definir algo de forma tão radical.

Uma coisa muito interessante foi escrita por Fílon, o judeu alexandrino dos tempos de Jesus. Ele entendia que uma pessoa (não judia necessariamente) seria bem-aventurada se cresse/entendesse 5 coisas básicas simplesmente. Veja só:

A pessoa que aprendeu estas coisas mais pela reflexão que por tê-las escutado, e que selou em sua alma estas noções maravilhosas e muito disputadas – que há e está aí um Deus, que o Ser verdadeiro é um, que ele criou o cosmo, e o fez um somente, como foi dito, tendo o assemelhado a si mesmo no que concerne à unicidade, e que ele age providencialmente para com o que foi criado – viverá uma vida bem-aventurada e feliz, tendo recebido em si a inscrição de dogmas de devoção e santidade.
Fílon, o judeu

Nem todos os empreendimentos revisionistas são produtivos e desenvolvidos de modo sóbrio. Mas algumas coisas precisam mesmo ser reconsideradas à luz de informações mais amplas.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

O que Maria e José foram fazer no Templo em Lucas 2.22-40?



Cesar Motta Rios


Pergunta de um amigo: "Seguinte, o que você pode me dizer de Lucas 2.22-40? Quais foram os rituais que José e Maria fizeram no templo? Jesus foi circuncidado neste dia? Quantos dias de vida ele tinha? Quem segurava ele era José ou Maria (como diz a tradição?)"


Vamos começar pela parte fácil. Não, Jesus não foi circuncidado nessa visita ao Templo. Ele já havia sido circuncidado ao oitavo dia de vida (cf. Lc 2.21), como Saulo e outras multidões de meninos judeus. A circuncisão, então, pode ter acontecido em Belém mesmo.

Pois então, o versículo 22 tem uma marcação temporal relacionada com o cumprimento dos “dias de purificação deles conforme a lei de Moisés”. Na Torah, encontramos que a mulher está impura por 7 dias após o nascimento de um filho do sexo masculino (Lv 12.2). Depois disso, ela tem que esperar pelo tempo da purificação para poder ir ao Templo. São mais 33 dias (Lv 12.4). Ou seja, Jesus tinha já 40 dias quando José e Maria foram com ele ao Templo.

Agora, vem a questão: O que foram fazer lá? Na verdade, o motivo é duplo! O texto apresenta um motivo no versículo 23 e outro no 24.

Primeiro, comento o motivo dado no 24: Maria precisa oferecer um sacrifício no Templo para voltar a estar cerimonialmente pura após o parto (Lv 12.7-8). É preciso lembrar que impureza não é o mesmo que pecado, assim como nem tudo que produz impureza é proibido! As pessoas costumam confundir esses dois sistemas, que se sobrepõem por vezes, mas que são diferentes.

Vamos ao motivo apresentado no versículo 23 por meio da citação de Ex 13.2. Essa ‘apresentação’ de Jesus só acontece por ele ser o primeiro filho (e do sexo masculino) de Maria. O que significa a ordem de o primogênito homem ser ‘santo para o senhor’ gera outro problema. Só os descendentes de Levi poderiam assumir funções sacerdotais. Só eles podiam ser completamente consagrados ao trabalho do Senhor como sugere o versículo. Jesus não era descendente de Levi. Portanto, outro caminho era seguido. O menino ‘não levita’ tinha que ser redimido do trabalho (que não poderia prestar!). Para tanto, o pai pagaria ao sacerdote a quantia de 5 shekels de prata (Nm 18.15). Há um pequeno problema cronológico aqui, pois o versículo agora mencionado determina que essa ‘redenção’ deveria ser feita 30 dias após o nascimento. Bom, como José e Maria tinham que se locomover para o sacrifício pela purificação dela, não me parece pouco razoável supor que tenham esperado para fazer tudo de uma só vez na ida Templo. (Isso já é bem hipotético e merece mais reflexão!) Cabe observar que essa 'redenção' continuou sendo praticada mesmo após a destruição do Templo (e até hoje ainda é). Os sacerdotes retiveram essa função mesmo sem o Templo, já que o rito não requer sacrifícios.

É difícil saber exatamente como seria esse ritual. Temos uma boa noção de como a praticaram os judeus desde o estabelecimento do judaísmo rabínico, mas não é seguro supor que a cerimônia fosse exatamente igual antes da destruição do Templo. Em princípio, é bem provável que, como nos períodos posteriores, o pai (José sendo considerado pai, claro) é que falasse ao sacerdote apresentando o filho primogênito antes de pagar por sua ‘redenção’. Sobre outros detalhes, tanto gestuais quanto verbais, é difícil dizer qualquer coisa. Não há registro contemporâneo ou anterior que nos auxilie.

Só mais um detalhe. Quem gosta da harmonização dos relatos dos Evangelhos, vai perceber que essa apresentação no Templo deve ter acontecido antes da fuga para o Egito (que não é relatada por Lucas). Mateus parece sugerir que a fuga ocorre às pressas logo que os magos do oriente vão embora. Então, eu acabo por supor que a ida ao Templo deve ter acontecido antes da vinda dos magos. Ou seja, José e Maria teriam saído de Belém a Jerusalém, e, depois, retornado a Belém, antes de partirem para Egito (Mateus) e, em seguida, Nazaré (Lucas). Nesse caso, os magos não deveriam aparecer nos presépios diante da manjedoura, já que teriam encontrado um menino Jesus já com quase dois meses (No mínimo! Mt 2.16 pode sugerir uma idade de quase dois anos). José deve ter tido tempo de arrumar uma instalação melhorzinha, não é?

Bom, sinto que, provavelmente, repeti o que todos já sabiam, mas era a resposta que tinha à mão por agora. Perguntas ou comentários que me façam aguçar a vista são sempre bem-vindos.