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terça-feira, 28 de junho de 2016

Aspectos histórico-sociais da apocalíptica (artigo de Ângelo Silva)

Título: Aspectos histórico-sociais da apocalíptica

Autor: Ângelo Silva

Ano: 2015

Publicação: Oracula (UMESP)

Resumo:  Com o intuito de expor o conteúdo da apocalíptica com suas particularidades histórico-sociais, este artigo propõe um olhar para tal literatura a partir de dois aspectos constituintes fundamentais: literatura apocalíptica como resultado de perseguição e literatura apocalíptica como composição de diversas fontes.

Palavras-chave: Apocalíptica; perseguição; fontes.

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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Todo judeu do século I d.C. queria impor a Lei sobre todo mundo ou odiava todos os não-judeus?

Cesar Rios

Você conhece aquela imagem que pintam dos judeus (e costumam generalizar mesmo, falando sobre “os judeus”) dos tempos de Jesus como sendo incorrigivelmente arredios com todos os seres humanos não-judeus? Dizem que só respeitavam quem tentasse cumprir a lei à risca, que queriam impor as leis da Torah e da tradição oral sobre todos os que se aproximassem deles, essas coisas. Particularmente, já escutei esse tipo de coisa em muitos lugares. O problema básico reside no fato de que as pessoas que dizem isso constroem um argumento circular. Deduzem essa informação a partir da leitura do Novo Testamento e, em seguida, aplicam essa informação para interpretar o Novo Testamento. Não percebem que “os judeus” não estão descritos no Novo Testamento como se este fosse um tratado etnográfico. Não percebem que é preciso olhar para o contexto mais amplo e para outras fontes antes de definir algo de forma tão radical.

Uma coisa muito interessante foi escrita por Fílon, o judeu alexandrino dos tempos de Jesus. Ele entendia que uma pessoa (não judia necessariamente) seria bem-aventurada se cresse/entendesse 5 coisas básicas simplesmente. Veja só:

“A pessoa que aprendeu estas coisas mais pela reflexão que por tê-las escutado, e que selou em sua alma estas noções maravilhosas e muito disputadas – que há e está aí um Deus, que o Ser verdadeiro é um, que ele criou o cosmo, e o fez um somente, como foi dito, tendo o assemelhado a si mesmo no que concerne à unicidade, e que ele age providencialmente para com o que foi criado – viverá uma vida bem-aventurada e feliz, tendo recebido em si a inscrição de dogmas de devoção e santidade.”
Fílon, o judeu

Nem todos os empreendimentos revisionistas são produtivos e desenvolvidos de modo sóbrio. Mas algumas coisas precisam mesmo ser reconsideradas à luz de informações mais amplas.

domingo, 4 de outubro de 2015

Uma Torah anti-hedonista em Fílon de Alexandria (artigo)

Título: Uma Torah anti-hedonista em Fílon de Alexandria

Resumo: A Bíblia hebraica não apresenta o prazer como problema. Não obstante, o envolvimento com a tradição filosófica grega trouxe a intérpretes judeus a possibilidade (quiçá a necessidade) de relacionar seu próprio Livro Sagrado com a questão do prazer. Em Fílon de Alexandria, a Torah se envolve de modo direto em uma oposição ao hedonismo. Neste artigo, observo a forma como essa oposição se realiza no texto de Fílon, e sugiro que se trata de uma oposição de discursos motivada não simplesmente pela resistência ao prazer ou por engajamento no contexto filosófico, mas também pela necessidade de preservação da pertinência do próprio Livro. Antes de abordar a obra do exegeta alexandrino, refiro-me brevemente ao que temos a respeito do prazer na Bíblia hebraica/grega, na Carta de Aristeas e em 4 Macabeus. Esse percurso deverá proporcionar o acompanhamento de um processo de mudança na relação entre os escritores judeus e o tema do prazer. Além disso, evidenciará a especificidade e a sofisticação que se encontra em Fílon.

Autor: Cesar Motta Rios

Periódico: Horizonte: Revista de Estudos de Teologia e Ciências da Religião (v. 13, n. 39).

Ano: 2015

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domingo, 28 de setembro de 2014

O Mashal rabínico (parabola rabínica): comparação ou metáfora? - Artigo de Pascal Peuzé

Parece não haver muita produção acadêmica em português a respeito do Judaísmo Rabínico. Seleciono um artigo que pode ser útil a quem se interessa pelo tema. Muito interessante por instigar uma comparação quase inevitável com as parábolas de Jesus nos evangelhos, é infelizmente curto e poderia detalhar mais as informações.

Título: O Mashal rabínico (parábola rabínica): comparação ou metáfora?

Autor: Pascal Jean André Roger Peuzé

Publicação: Revista Vértices, 2010.

Resumo: O mashal rabínico (parábola rabínica) foi considerado durante séculos como uma simples comparação destinada a ilustrar os ensinamentos dos Sábios de Israel. Porém, nas últimas décadas, os estudos sobre a linguagem revolucionaram a abordagem deste gênero literário e afinaram a nossa compreensão sobre a sua natureza e função. Longe de ser meramente uma comparação, ele apresenta-se como uma metáfora desenvolvida – metáfora viva – com um alto potencial hermenêutico. É por esta razão que os Sábios multiplicaram o uso das parábolas a fim de perscrutarem a Torá. Este artigo, tomando por base um exemplo extraído da Mishná (Mishná Sukká 2,9), pretende mostrar a especificidade do mashal rabínico

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domingo, 3 de agosto de 2014

"Construção de fronteiras entre judaísmo e cristianismo no Império Romano" - Artigo de Monica Selvatici

Título: Construção de fronteiras entre judaísmo e cristianismo no Império Romano: os judaizantes e a retórica antijudaica no movimento cristão dos séculos I e II d.C.

Autoria: Monica Selvatici

Publicação: Revista Romanitas, 2013.

Resumo: Este artigo tem por propósito analisar a retórica antijudaica em textos cristãos dos séculos I e II d. C. suscitada não por ataques de judeus à fé cristã, mas, diferentemente, pela repetida presença de cristãos judaizantes (que adotam regras da lei de Moisés não mais seguidas pela maioria dos cristãos). Tal retórica auxilia na construção de fronteiras entre cristãos e judeus e, nesse sentido, na elaboração de uma identidade cristã que deve ser distanciada do universo de costumes e práticas judaicos.

Para acessar o artigo completo clique AQUI.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Sobre a diversidade étnico-cultural do judaísmo hoje - Artigo "Do norte da África ao subcontinente indiano" de Carlos A. Póvoa

PÓVOA, Carlos A. Do norte da África ao subcontinente indiano: a extensão histórico-geográfica da comunidade judaica. In: Revista de Estudos Judaicos. IHIM: Belo Horizonte, 2011.


quarta-feira, 2 de julho de 2014

As seitas judaicas nos tempos de Jesus


por Cesar Rios
Flávio Josefo é testemunha privilegiada do contexto religioso na Judeia do século I d.C.. Ele não só conviveu de perto com cada um dos grupos judaicos ali presentes, como os experimentou na prática, conforme diz em sua autobiografia (Vida de Flávio Josefo, 10ss). Josefo é um judeu de família sacerdotal, que e vivia em Jerusalém antes de ser levado a Roma como escravo, e que, depois disso, se tornou um grande historiador dedicado a escrever em grego sobre os judeus. Conhecer minimamente o que ele diz sobre os saduceus, fariseus e essênios é um pequeno, mas importante passo. O Novo Testamento não nos dá informações além das imprescindíveis para seu próprio (e inigualável) interesse. Saduceus e fariseus, por sua vez, não nos legaram testemunhos escritos deles mesmos. E não temos absoluta certeza sobre a relação entre muitos dos textos encontrados em Qumran e os essênios (assunto para o futuro).

Pois bem, a seguir ofereço uma pequena seleção de trechos em minha própria e apressada tradução. Espero que lhe seja útil.

Observo que o primeiro trecho não apresenta propriamente uma seita judaica, mas um movimento revoltoso. Josefo chama seu líder, um certo galileu chamado Judas (que não deve ser conhecido com nenhum dos dois Judas dos Evangelhos), de sofista. Logo, se referirá a saduceus, fariseus e essênios como filósofos. Fica evidente que ele apresenta essas seitas (haíresis, termo que não tem nenhuma conotação pejorativa) em oposição ao referido movimento revoltoso. Para ressaltar essa impressão, basta lembrar da insistente oposição entre sofista e filósofo em Platão.

Seguem os trechos Guerra dos Judeus (aprox. 75 d.C.):


Τῆς δὲ Ἀρχελάου χώρας εἰς ἐπαρχίαν περιγραφείσης ἐπίτροπος τῆς ἱππικῆς παρὰ Ῥωμαίοις τάξεως Κωπώνιος πέμπεται μέχρι τοῦ κτείνειν λαβὼν παρὰ Καίσαρος ἐξουσίαν. ἐπὶ τούτου τις ἀνὴρ Γαλιλαῖος Ἰούδας ὄνομα εἰς ἀπόστασιν ἐνῆγε τοὺς ἐπιχωρίους κακίζων, εἰ φόρον τε Ῥωμαίοις τελεῖν ὑπομενοῦσιν καὶ μετὰ τὸν θεὸν οἴσουσι θνητοὺς δεσπότας. ἦν δ᾽ οὗτος σοφιστὴς ἰδίας αἱρέσεως οὐδὲν τοῖς ἄλλοις προσεοικώς.


Sob o reinado desse [Arquelau], certo homem galileu, de nome Judas, começou a persuadir os habitantes do país para a revolta reprovando-os: “se eles se submetem a pagar tributo aos romanos, suportarão senhores mortais junto de Deus”. Esse homem era um mestre (sofista) de sua própria seita, e não tinha semelhança com os outros. B.J. II 8.1


Τρία γὰρ παρὰ Ἰουδαίοις εἴδη φιλοσοφεῖται, καὶ τοῦ μὲν αἱρετισταὶ Φαρισαῖοι, τοῦ δὲ Σαδδουκαῖοι, τρίτον δέ, ὃ δὴ καὶ δοκεῖ σεμνότητα ἀσκεῖν, Ἐσσηνοὶ καλοῦνται, Ἰουδαῖοι μὲν γένος ὄντες, φιλάλληλοι δὲ καὶ τῶν ἄλλων πλέον. οὗτοι τὰς μὲν ἡδονὰς ὡς κακίαν ἀποστρέφονται, τὴν δὲ ἐγκράτειαν καὶ τὸ μὴ τοῖς πάθεσιν ὑποπίπτειν ἀρετὴν ὑπολαμβάνουσιν.


Pois, entre os judeus, se filosofa de três formas. De uma são adeptos os fariseus, de outra os saduceus, e há a terceira, que também parece exercitar a seriedade. [Estes últimos] são chamados essênios, os quais são judeus com relação à etnia, e são mutuamente amigáveis, mais do que os outros. E eles se afastam do prazer como uma coisa má, e consideram ser uma virtude o autocontrole e o não se submeter às paixões. B.J. II 8.2


Δύο δὲ τῶν προτέρων Φαρισαῖοι μὲν οἱ μετὰ ἀκριβείας δοκοῦντες ἐξηγεῖσθαι τὰ νόμιμα καὶ τὴν πρώτην ἀπάγοντες αἵρεσιν εἱμαρμένῃ τε καὶ θεῷ προσάπτουσι πάντα, καὶ τὸ μὲν πράττειν τὰ δίκαια καὶ μὴ κατὰ τὸ πλεῖστον ἐπὶ τοῖς ἀνθρώποις κεῖσθαι, βοηθεῖν δὲ εἰς ἕκαστον καὶ τὴν εἱμαρμένην: ψυχήν τε πᾶσαν μὲν ἄφθαρτον, μεταβαίνειν δὲ εἰς ἕτερον σῶμα τὴν τῶν ἀγαθῶν μόνην, τὰς δὲ τῶν φαύλων ἀιδίῳ τιμωρίᾳ κολάζεσθαι.


E [restam] as duas primeiras. Os fariseus, que parecem com diligência explicar as coisas que são conforme a lei, e que separaram a primeira seita (haíresis), atribuem todas as coisas a Deus e ao destino; e o praticar a justiça ou não reside, em grande parte, nos [próprios] seres humanos, mas também o destino vem ao auxílio de cada um; toda alma, por um lado, é imortal, somente a dos bons, por outro lado, passa para outro corpo, enquanto a dos maus é castigada com uma vingança eterna. B.J. II 8.14


Σαδδουκαῖοι δέ, τὸ δεύτερον τάγμα, τὴν μὲν εἱμαρμένην παντάπασιν ἀναιροῦσιν καὶ τὸν θεὸν ἔξω τοῦ δρᾶν τι κακὸν ἢ ἐφορᾶν τίθενται: φασὶν δ᾽ ἐπ᾽ ἀνθρώπων ἐκλογῇ τό τε καλὸν καὶ τὸ κακὸν προκεῖσθαι καὶ κατὰ γνώμην ἑκάστου τούτων ἑκατέρῳ προσιέναι. ψυχῆς τε τὴν διαμονὴν καὶ τὰς καθ᾽ ᾄδου τιμωρίας καὶ τιμὰς ἀναιροῦσιν. καὶ Φαρισαῖοι μὲν φιλάλληλοί τε καὶ τὴν εἰς τὸ κοινὸν ὁμόνοιαν ἀσκοῦντες, Σαδδουκαίων δὲ καὶ πρὸς ἀλλήλους τὸ ἦθος ἀγριώτερον αἵ τε ἐπιμιξίαι πρὸς τοὺς ὁμοίους ἀπηνεῖς ὡς πρὸς ἀλλοτρίους. τοιαῦτα μὲν περὶ τῶν ἐν Ἰουδαίοις φιλοσοφούντων εἶχον εἰπεῖν.


Já os saduceus, a segunda ordem, excluem completamente o destino e colocam Deus de fora do âmbito da prática do mal ou de sua supervisão. Dizem que para a escolha dos seres humanos está disposto o mal e o bem, e que conforme o julgamento de cada pessoa é que se admite um ou o outro. E excluem também a continuidade da alma, as punições e honras do hades. E enquanto os fariseus, por um lado, são mutuamente amigáveis e exercitam a concórdia com vistas ao que é compartilhado, os saduceus, por outro lado, até no trato de uns para com os outros têm o costume mais selvagem, e o envolvimento para com seus iguais é rude como se fosse para com estranhos. Era isso o que eu tinha a dizer a respeito dos que são filósofos entre os judeus. B.J. II 8.14