E, com relação
ao objetivo e zelo de vida dele, testemunha também, e não menos, o nome. Pois
“José” é interpretado “adição”. E a vã glória sempre acrescenta o ilegítimo ao
genuíno, o estranho ao familiar, a mentira à verdade, o excedente à autossuficiência,
frouxidão à vida biológica e arrogância à vida do dia a dia.
Examina o que é
que quero demonstrar. Com comidas e bebidas nos alimentamos, ainda que seja um
baratíssimo pão de cevada e água de fonte. Por que, então, a vã glória agregou
milhares de tipos de massas de bolos de leite e bolos de mel, além de
trabalhosas e totalmente variadas misturas de incontáveis vinhos, temperadas
mais para a fruição do prazer do que para o aproveitamento da nutrição?
Novamente,
condimentos necessários à comida [são] cebolas, vegetais, muitas das frutas e,
ainda, queijo, e se algo mais há de semelhante modo. E se queres, considerando
as pessoas que comem carne, escrevemos junto a esses também peixe e carne.
Ora,
então não
seria suficiente se servir depois de assar em brasa e grelhar de modo
improvisado ao fogo, à maneira dos heróis, que eram verdadeiramente
homens? Mas o glutão
não se apressa somente em direção essas. Tendo recebido a vã glória como
aliada, e tendo despertado a paixão delicada que há nele mesmo,
investiga e
procura por cozinheiros e organizadores de mesas famosos nessa arte.
Esses que
agitaram iscas descobertas há muito tempo diante do miserável ventre, que
prepararam peculiaridades de sabores, e que as dispuseram ordenadamente, adulam
e domesticam a língua. Em seguida, imediatamente, atraem o paladar, passagem
para os sentidos, por meio do qual, sem demora, aquele que é ávido por jantares
se revela escravo em vez de livre.
Quem
é que não sabe que o vestuário foi preparado primeiramente para o corpo contra
os danos que sobrevêm a partir do frio congelante e do forte calor?
Corta-vento, por um lado, como os poetas dizem em algum lugar, no inverno...
[lacuna de uma linha]
Quem,
então, elabora com destreza as túnicas púrpuras? Quem, as peças de roupa leves
e transparentes? Quem, vestes fiadas como que por aranhas? Quem, as decoradas
com flores, com tingimentos ou bordados, por meio daqueles que são experientes
para tingir por imersão ou tecer coisas coloridas, e que superam a
representação que se encontra na arte da pintura? Não é a vã glória?
Mas,
de fato, também casas, pelas mesmas razões, se fizeram necessárias a nós, de
modo que não sejamos feridos por animais selvagens ou por seres humanos ainda
mais selvagens quanto à natureza, os quais nos perseguem. Por que, então,
ornamentamos os pisos e as paredes com pedras caras? E por que vamos à Ásia, à
Líbia, a toda a Europa e às ilhas, procurando por colunas selecionadas segundo
a origem, e por marcos.
E
por que, ao adornarmos os capiteis, nos diligenciamos e rivalizamos a respeito
dos entalhes dóricos,
jônicos e coríntios e quantas coisas inventam aqueles que desdenham das normas estabelecidas? E por que preparamos aposentos
masculinos e femininos com tetos de ouro? Não é, então,
pela vã glória?
E, decerto, para
o sono seria suficiente um chão macio – visto que conta-se que até os dias de
hoje os gimnosofistas, entre os indianos, se deitam no chão por costumes
ancestrais – e, se isso não bastar, um leito de folhas, ou então uma cama feita
de pedras ajuntadas ou de madeiras baratas.
Mas, com efeito,
se produzem em longo tempo e com muitos trabalhos e despesas pés de marfim nas
armações e divãs com madrepérolas caras e envolvidos em capas multicores.
Alguns são todo de prata, todo de ouro e cravejados de pedras preciosas, com
roupas de cama bordadas com flores e tecidas com ouro, como tendo sido
ornamentados para exibição e pompa, não para a necessidade de cada dia. Desses,
o artesão é a vã glória.
E por que seria
preciso procurar para unguentos algo além do fruto espremido da oliveira? Porque
suaviza, libera a fatiga do corpo e promove uma boa condição corporal. E se
porventura alguma parte vier a estar frouxa, ele a ajunta com compactação e
coloca um tônus e um vigor que não é inferior ao de nenhuma outra.
Não obstante, em
afronta a coisas tão úteis, são erigidos como fortalezas os prazerosos
unguentos da vã glória, para os quais os perfumeiros trabalham penosamente e
contribuem grandes países - Síria, Babilônia, Índia e Cítia - nos quais estão
as produções das ervas aromáticas.
Para o beber,
então, o que é preciso além do copo da natureza, uma obra de arte no mais alto
nível? Esse copo são as nossas mãos. Alguém que as ajunta como uma só, coloca
em forma de concha, e muito bem as posiciona junto à boca enquanto outro verte
a bebida obtém não somente remédio para a sede, mas também um prazer
indescritível.
E se for
absolutamente necessária outra coisa, o copo rústico do agricultor não seria
adequado? Seria necessário procurar pelas artes de outros ilustres? Por que
preparar generosa quantidade de taças de prata e de outro, se não pela
arrogância, que é grandemente insolente, e pela vã glória, que vai e vem em
oscilação.
Quando também
algumas pessoas julgam digno serem coroadas não com uma cheirosa coroa de
louro, nem de canela, de violetas ou lírios, ou rosa, ou ramo de oliveira, ou,
em resumo, de alguma flor, a desdenhar assim os presentes de Deus, que ele
entrega pelas estações anuais, suspendem [coroas] de ouro sobre a cabeça, uma
carga pesadíssima, em meio à ágora
repleta de pessoas sem pudor, o que mais se deve julgar além do fato de que são
escravos da vã glória, enquanto alegam não somente serem livres, mas também
líderes de muitos outros?
O dia me
abandonará enquanto exponho as corrupções da vida humana. E, de fato, por que é
necessário me delongar? Pois quem nunca as ouviu, e quem não é um espectador
dessas coisas? Ora, de fato, quem não está habituado e acostumado com elas? De
modo que, de maneira totalmente correta, a Palavra Sagrada nomeou como “Adição”
aquele que é tanto inimigo da modéstia, quanto companheiro da arrogância.
Pois exatamente
como nas árvores crescem brotos estranhos a elas, grandes infortúnios para os
genuínos, os quais os agricultores purificam e cortam por cuidado para com o
que é necessário, assim também, junto a uma vida verdadeira e modesta, brota a
vida mentida e cheia arrogância, da qual, até os dias de hoje, ninguém
encontrou um agricultor que tenha cortado o rebento danoso pelas próprias raízes.