quarta-feira, 18 de maio de 2016
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domingo, 15 de maio de 2016
Em Atos 9.27, é Barnabé que conta aos apóstolos sobre a conversão de Saulo? Não seria o próprio Saulo?
Eis a questão!
As traduções tendem a deixar Barnabé como o sujeito da contação. Veja só algumas como exemplo:
NTLH
Então Barnabé veio
ajudá-lo e o apresentou aos apóstolos. E lhes contou como Saulo tinha
visto o Senhor no caminho e como o Senhor havia falado com ele. Barnabé
também contou como, em Damasco, Saulo, pelo poder do nome de Jesus,
havia anunciado corajosamente o evangelho.
NVI
Então Barnabé o levou
aos apóstolos e lhes contou como, no caminho, Saulo vira o Senhor, que
lhe falara, e como em Damasco ele havia pregado corajosamente em nome de
Jesus.
ARA
Mas Barnabé, tomando-o consigo, levou-o aos apóstolos; e contou-lhes como ele vira o Senhor no caminho, e que este lhe falara, e como em Damasco pregara ousadamente em nome de Jesus.
"Vai lá, professor, olha no grego e conta se é isso mesmo!" - diz o aluno que ainda não entendeu que o grego nem sempre resolve tudo. O texto é ambíguo. Se lido só o verso isoladamente, de fato, pode parecer que o sujeito tem que ser Barnabé. Mas, quando se levanta a questão, por causa do contexto considerado como um todo, percebe-se que Saulo também pode ser sujeito do verbo.
Βαρναβᾶς δὲ ἐπιλαβόμενος αὐτὸν ἤγαγεν πρὸς τοὺς ἀποστόλους καὶ διηγήσατο αὐτοῖς πῶς ἐν τῇ ὁδῷ εἶδεν τὸν κύριον καὶ ὅτι ἐλάλησεν αὐτῷ καὶ πῶς ἐν Δαμασκῷ ἐπαρρησιάσατο ἐν τῷ ὀνόματι τοῦ Ἰησοῦ.
É de se notar que NTLH e NVI acrescentam o nome de Saulo como sujeito explícito do verbo "ver". Assim, praticamente excluem a possibilidade de que ele seja aquele que conta isso. Não se diria: "O Cesar contou como o Cesar viu o ônibus sair sem ele". Por outro lado, seria possível: "O Cesar contou como ele viu o ônibus sair sem ele". O sujeito de "contar" não costuma estar inserido nominalmente no conteúdo do contado. Enfim, em grego, o nome não está lá. A NTLH ainda acrescenta: "Barnabé também contou". A ARA mantém a possibilidade da ambiguidade presente no texto grego.
Pois então, abaixo, exponho o link para um pequeno artigo de Mark Wilson. Ele pretende lançar luz sobre essa questão. A meu ver, consegue. Observando (além do contexto narrativo) o fato de que o testemunho de alguém que tenha vivenciado ou visto os fatos testemunhados é estritamente importante para os textos de Lucas/Atos, assim como a existência de possível paralelo entre o tríplice relato do ocorrido na casa de Cornélio e o tríplice relato da conversão de Saulo, Wilson defende que Saulo mesmo relatou aos apóstolos o ocorrido. Barnabé só o teria apresentado a eles. O artigo é conciso e claro.
Não costumo compartilhar aqui artigos escritos em inglês, porque pretendo que o blog seja acessível a todos, e porque julgo positivo divulgar o trabalho dos pesquisadores falantes de português. Contudo, o fato de ser artigo curto e sobre problema que eu desconhecia me motivou a divulgá-lo. Além do mais, é notável que se trate de produto de pesquisa realizada no Sul, isto é, na África do Sul, e não no eixo Estados Unidos-Europa.
quarta-feira, 16 de março de 2016
Uma frase de Fílon
terça-feira, 8 de março de 2016
O acrônimo do peixe segundo Agostinho
Mas destas cinco palavras
gregas, as quais são Ἰησοῦς Xριστός
θεοῦ υἱός σωτήρ, o que é em português ["em latim", no original] Jesus Cristo de Deus Filho Salvador, se as
primeiras letras reúnes, resultará ἰχθύς, isto é, “peixe”, termo com que
misticamente é entendido “Cristo”, uma vez que no abismo desta condição mortal,
como na profundeza das águas, ele pôde estar vivo, isto é, sem pecado.
Horum autem graecorum quinque
verborum, quae sunt, Ἰησοῦς Xριστός θεοῦ
υἱός σωτήρ quod est latine Iesus Christus Dei Filius
Salvator, si primas litteras iungas, erit ἰχθύς id est Piscis, in quo nomine mystice
intellegitur Christus, eo quod in huius mortalitatis abysso velut in aquarum
profunditate vivus, hoc est sine peccato, esse potuerit.
(Agostinho - Cidade de Deus 1,
XVIII, 23)
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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016
Todo judeu do século I d.C. queria impor a Lei sobre todo mundo ou odiava todos os não-judeus?
Cesar Rios
Você conhece aquela imagem que
pintam dos judeus (e costumam generalizar mesmo, falando sobre “os judeus”) dos
tempos de Jesus como sendo incorrigivelmente arredios com todos os seres
humanos não-judeus? Dizem que só respeitavam quem tentasse cumprir a lei à
risca, que queriam impor as leis da Torah e da tradição oral sobre todos os que
se aproximassem deles, essas coisas. Particularmente, já escutei esse tipo de
coisa em muitos lugares. O problema básico reside no fato de que as pessoas que
dizem isso constroem um argumento circular. Deduzem essa informação a partir da
leitura do Novo Testamento e, em seguida, aplicam essa informação para
interpretar o Novo Testamento. Não percebem que “os judeus” não estão descritos
no Novo Testamento como se este fosse um tratado etnográfico. Não percebem que
é preciso olhar para o contexto mais amplo e para outras fontes antes de definir
algo de forma tão radical.
Uma coisa muito interessante foi
escrita por Fílon, o judeu alexandrino dos tempos de Jesus. Ele entendia que
uma pessoa (não judia necessariamente) seria bem-aventurada se
cresse/entendesse 5 coisas básicas simplesmente. Veja só:
“A pessoa que aprendeu estas
coisas mais pela reflexão que por tê-las escutado, e que selou em sua alma
estas noções maravilhosas e muito disputadas – que há e está aí um Deus, que o
Ser verdadeiro é um, que ele criou o cosmo, e o fez um somente, como foi dito,
tendo o assemelhado a si mesmo no que concerne à unicidade, e que ele age
providencialmente para com o que foi criado – viverá uma vida bem-aventurada e
feliz, tendo recebido em si a inscrição de dogmas de devoção e santidade.”
Fílon, o judeu
Nem todos os empreendimentos
revisionistas são produtivos e desenvolvidos de modo sóbrio. Mas algumas coisas
precisam mesmo ser reconsideradas à luz de informações mais amplas.
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