quinta-feira, 10 de julho de 2014

Veja os Manuscritos do Mar Morto você mesmo!


The Leon Levy Dead Sea Scrolls Digital Library oferece a oportunidade única de ver os manuscritos do Mar Morto em detalhe, com uma excepcional qualidade de imagem. O estado de muitos manuscritos pode ser meio decepcionante para quem imaginava rolos em ótimo estado. Mas a antiguidade dos textos e a exclusiva preservação de muitos deles são motivos suficientes para valorizar cada pedacinho escrito de pergaminho ou papiro.

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4QMMT: um excelente texto introdutório (em inglês)


A concisão e a organização desse texto escrito por Jeff Dryden são louváveis. Se você lê em inglês, não deixe de aproveitar. É um ótimo texto para entender as acaloradas discussões e os problemas existentes a respeito desse notável "conjunto de manuscritos" encontrado em Qumran.

Acesse clicando AQUI



Artigo sobre as prescrições de 4QMMT e a identidade dos sectários de Qumran


Título: NÃO MISTURAR, NÃO CONTAMINAR: AS PRESCRIÇÕES DE 4QMMT LIMITES E IDENTIDADE SOCIAL DOS MEMBROS DE QUMRAN

Autoria: Elisa Rodrigues

Publicação: Revista Oracula, 2006.

Resumo: O documento 4QMMT compõe o conjunto dos Manuscritos do Mar Morto. Trata-se de uma carta que contém vinte e duas leis religiosas que visavam à regulação do comportamento religioso e social do grupo de Qumran. Este artigo pretende verificar de que forma os autores e a audiência desse material articularam e re-interpretaram os conteúdos da Lei.

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segunda-feira, 7 de julho de 2014

Material de Apoio - Língua Grega: A noção de "caso"

Por que um livro faz parte do Cânone do Novo Testamento e outro não? - Critérios de Canonicidade

Códices de Nag Hammadi
por Cesar Rios

Durante o processo de definição da coleção de textos que viriam a constituir o Novo Testamento, certos critérios de canonicidade foram frequentemente utilizados pela Igreja nos primeiros séculos da Era Cristã. Abaixo, apresento os principais em forma de perguntas, acrescentando trechos de textos antigos (por mim traduzidos) de modo a exemplificar a  consideração desses critérios.

O livro foi escrito por um apóstolo?

fertur etiam ad Laodicenses, alia ad Alexandrinos, Pauli nomine fictae ad haeresem Marcionis, et alia plura, quae in catholicam ecclesiam recipi non potest; fel enim cum melle misceri non congruit

Há, ainda, uma carta aos laodicenses e outra aos alexandrinos forjadas no nome de Paulo em prol da heresia de Marcião, e outras tantas que não podem ser recebidas na Igreja universal; fel não se mistura com mel.

Pastorem uero nuperrime temporibus nostris in Urbe Roma Hermas conscripsit, [...]; et ideo legi eum quidem oportet, se publicare uero in ecclesia populo, neque inter Prophetas, completum numero, neque inter apostolos, in finem temporum potest.

Mas Hermas compôs O Pastor muito recentemente, em nosso tempo, na cidade de Roma [...] Por isso, deve ser lido, mas não lido publicamente na Igreja, nem entre os profetas, pois seu número está completo, nem entre os apóstolos, pois está findo o tempo deles.

Cânon Muratoriano, aprox. 170 d.C.

O livro foi escrito por alguém associado a um apóstolo?

Exemplos: Lucas - Paulo ou Marcos – Pedro

δεύτερον δὲ τὸ κατὰ Μάρκον, ὡς Πέτρος ὑφηγήσατο αὐτῶι, ποιήσαντα, ὃν καὶ υἱὸν ἐν τῆι καθολικῆι ἐπιστολῆι διὰ τούτων ὡμολόγησεν φάσκων· ἀσπάζεται ὑμᾶς ἡ ἐν Βαβυλῶνι συνεκλεκτὴ καὶ Μάρκος ὁ υἱός μου.

Em segundo lugar, está o [Evangelho] segundo Marcos, que [o] fez como Pedro lhe indicava. Esse [Marcos], Pedro reconhece ser seu filho na epístola universal ao dizer com nos seguintes termos: "Cumprimenta-os a co-eleita que está na Babilônia, e Marcos, meu filho."

Orígenes (184 – 253d.C.), segundo Eusébio em Hist. Ecl. VI 25

O livro é coerente com os outros livros canônicos e com os ensinamentos dos apóstolos?

Orígenes diz sobre Hebreus:

ἐγὼ δὲ ἀποφαινόμενος εἴποιμ' ἂν ὅτι τὰ μὲν νοήματα τοῦ ἀποστόλου ἐστίν, ἡ δὲ φράσις καὶ ἡ σύνθεσις ἀπομνημονεύσαντός τινος τὰ ἀποστολικὰ καὶ ὥσπερ σχολιογραφήσαντός τινος τὰ εἰρημένα ὑπὸ τοῦ διδασκάλου.

Expondo minha opinião, eu diria que, por um lado, os pensamentos são do apóstolo, enquanto que, por outro lado, o estilo e a composição são de alguém que relembra os [ensinamentos] apostólicos, como de alguém que comenta por escrito as coisas que haviam sido ditas pelo professor.

Orígenes, segundo Eusébio em Hist. Ecl. VI 25

O livro é usado como dotado de autoridade pela igreja?

apocalypses etiam Iohannis, et Petri, tantum recipimus, quam quidam ex nostris legi in ecclesia nolunt.

Aceitamos somente o apocalipse de João e o de Pedro, ainda que alguns de nós não querem que seja lido na Igreja.

Cânon Muratoriano, aprox. 170 d.C.


quarta-feira, 2 de julho de 2014

As seitas judaicas nos tempos de Jesus


por Cesar Rios
Flávio Josefo é testemunha privilegiada do contexto religioso na Judeia do século I d.C.. Ele não só conviveu de perto com cada um dos grupos judaicos ali presentes, como os experimentou na prática, conforme diz em sua autobiografia (Vida de Flávio Josefo, 10ss). Josefo é um judeu de família sacerdotal, que e vivia em Jerusalém antes de ser levado a Roma como escravo, e que, depois disso, se tornou um grande historiador dedicado a escrever em grego sobre os judeus. Conhecer minimamente o que ele diz sobre os saduceus, fariseus e essênios é um pequeno, mas importante passo. O Novo Testamento não nos dá informações além das imprescindíveis para seu próprio (e inigualável) interesse. Saduceus e fariseus, por sua vez, não nos legaram testemunhos escritos deles mesmos. E não temos absoluta certeza sobre a relação entre muitos dos textos encontrados em Qumran e os essênios (assunto para o futuro).

Pois bem, a seguir ofereço uma pequena seleção de trechos em minha própria e apressada tradução. Espero que lhe seja útil.

Observo que o primeiro trecho não apresenta propriamente uma seita judaica, mas um movimento revoltoso. Josefo chama seu líder, um certo galileu chamado Judas (que não deve ser conhecido com nenhum dos dois Judas dos Evangelhos), de sofista. Logo, se referirá a saduceus, fariseus e essênios como filósofos. Fica evidente que ele apresenta essas seitas (haíresis, termo que não tem nenhuma conotação pejorativa) em oposição ao referido movimento revoltoso. Para ressaltar essa impressão, basta lembrar da insistente oposição entre sofista e filósofo em Platão.

Seguem os trechos Guerra dos Judeus (aprox. 75 d.C.):


Τῆς δὲ Ἀρχελάου χώρας εἰς ἐπαρχίαν περιγραφείσης ἐπίτροπος τῆς ἱππικῆς παρὰ Ῥωμαίοις τάξεως Κωπώνιος πέμπεται μέχρι τοῦ κτείνειν λαβὼν παρὰ Καίσαρος ἐξουσίαν. ἐπὶ τούτου τις ἀνὴρ Γαλιλαῖος Ἰούδας ὄνομα εἰς ἀπόστασιν ἐνῆγε τοὺς ἐπιχωρίους κακίζων, εἰ φόρον τε Ῥωμαίοις τελεῖν ὑπομενοῦσιν καὶ μετὰ τὸν θεὸν οἴσουσι θνητοὺς δεσπότας. ἦν δ᾽ οὗτος σοφιστὴς ἰδίας αἱρέσεως οὐδὲν τοῖς ἄλλοις προσεοικώς.


Sob o reinado desse [Arquelau], certo homem galileu, de nome Judas, começou a persuadir os habitantes do país para a revolta reprovando-os: “se eles se submetem a pagar tributo aos romanos, suportarão senhores mortais junto de Deus”. Esse homem era um mestre (sofista) de sua própria seita, e não tinha semelhança com os outros. B.J. II 8.1


Τρία γὰρ παρὰ Ἰουδαίοις εἴδη φιλοσοφεῖται, καὶ τοῦ μὲν αἱρετισταὶ Φαρισαῖοι, τοῦ δὲ Σαδδουκαῖοι, τρίτον δέ, ὃ δὴ καὶ δοκεῖ σεμνότητα ἀσκεῖν, Ἐσσηνοὶ καλοῦνται, Ἰουδαῖοι μὲν γένος ὄντες, φιλάλληλοι δὲ καὶ τῶν ἄλλων πλέον. οὗτοι τὰς μὲν ἡδονὰς ὡς κακίαν ἀποστρέφονται, τὴν δὲ ἐγκράτειαν καὶ τὸ μὴ τοῖς πάθεσιν ὑποπίπτειν ἀρετὴν ὑπολαμβάνουσιν.


Pois, entre os judeus, se filosofa de três formas. De uma são adeptos os fariseus, de outra os saduceus, e há a terceira, que também parece exercitar a seriedade. [Estes últimos] são chamados essênios, os quais são judeus com relação à etnia, e são mutuamente amigáveis, mais do que os outros. E eles se afastam do prazer como uma coisa má, e consideram ser uma virtude o autocontrole e o não se submeter às paixões. B.J. II 8.2


Δύο δὲ τῶν προτέρων Φαρισαῖοι μὲν οἱ μετὰ ἀκριβείας δοκοῦντες ἐξηγεῖσθαι τὰ νόμιμα καὶ τὴν πρώτην ἀπάγοντες αἵρεσιν εἱμαρμένῃ τε καὶ θεῷ προσάπτουσι πάντα, καὶ τὸ μὲν πράττειν τὰ δίκαια καὶ μὴ κατὰ τὸ πλεῖστον ἐπὶ τοῖς ἀνθρώποις κεῖσθαι, βοηθεῖν δὲ εἰς ἕκαστον καὶ τὴν εἱμαρμένην: ψυχήν τε πᾶσαν μὲν ἄφθαρτον, μεταβαίνειν δὲ εἰς ἕτερον σῶμα τὴν τῶν ἀγαθῶν μόνην, τὰς δὲ τῶν φαύλων ἀιδίῳ τιμωρίᾳ κολάζεσθαι.


E [restam] as duas primeiras. Os fariseus, que parecem com diligência explicar as coisas que são conforme a lei, e que separaram a primeira seita (haíresis), atribuem todas as coisas a Deus e ao destino; e o praticar a justiça ou não reside, em grande parte, nos [próprios] seres humanos, mas também o destino vem ao auxílio de cada um; toda alma, por um lado, é imortal, somente a dos bons, por outro lado, passa para outro corpo, enquanto a dos maus é castigada com uma vingança eterna. B.J. II 8.14


Σαδδουκαῖοι δέ, τὸ δεύτερον τάγμα, τὴν μὲν εἱμαρμένην παντάπασιν ἀναιροῦσιν καὶ τὸν θεὸν ἔξω τοῦ δρᾶν τι κακὸν ἢ ἐφορᾶν τίθενται: φασὶν δ᾽ ἐπ᾽ ἀνθρώπων ἐκλογῇ τό τε καλὸν καὶ τὸ κακὸν προκεῖσθαι καὶ κατὰ γνώμην ἑκάστου τούτων ἑκατέρῳ προσιέναι. ψυχῆς τε τὴν διαμονὴν καὶ τὰς καθ᾽ ᾄδου τιμωρίας καὶ τιμὰς ἀναιροῦσιν. καὶ Φαρισαῖοι μὲν φιλάλληλοί τε καὶ τὴν εἰς τὸ κοινὸν ὁμόνοιαν ἀσκοῦντες, Σαδδουκαίων δὲ καὶ πρὸς ἀλλήλους τὸ ἦθος ἀγριώτερον αἵ τε ἐπιμιξίαι πρὸς τοὺς ὁμοίους ἀπηνεῖς ὡς πρὸς ἀλλοτρίους. τοιαῦτα μὲν περὶ τῶν ἐν Ἰουδαίοις φιλοσοφούντων εἶχον εἰπεῖν.


Já os saduceus, a segunda ordem, excluem completamente o destino e colocam Deus de fora do âmbito da prática do mal ou de sua supervisão. Dizem que para a escolha dos seres humanos está disposto o mal e o bem, e que conforme o julgamento de cada pessoa é que se admite um ou o outro. E excluem também a continuidade da alma, as punições e honras do hades. E enquanto os fariseus, por um lado, são mutuamente amigáveis e exercitam a concórdia com vistas ao que é compartilhado, os saduceus, por outro lado, até no trato de uns para com os outros têm o costume mais selvagem, e o envolvimento para com seus iguais é rude como se fosse para com estranhos. Era isso o que eu tinha a dizer a respeito dos que são filósofos entre os judeus. B.J. II 8.14