sábado, 23 de agosto de 2014

Sobre a pergunta "Jesus pregou o evangelho?" / Uma possível reconsideração sobre o termo "evangelho" em Mc 1:1


Se você entende inglês, assista o vídeo depois de ler este breve comentário. Se não entende, não se preocupe. Eu deixarei claro o que me importa aqui no texto mesmo. A questão que esses quatro senhores discutem é esta: "Jesus pregou o evangelho?" Parece uma pergunta sem sentido para quem está inserido na fé cristã. Mas não só há muito sentido, como é mesmo uma questão urgente. O fato é que estudos recentes propõem um contraste enorme entre o que lemos nas cartas de Paulo e o que lemos nas falas de Jesus nos Evangelhos. Assinalam que o que Jesus falava não tinha nada a ver com a pregação da graça levada pelo apóstolo dos gentios.* Não encontramos Jesus falando de justificação pela fé. Imagino que a questão esteja mais clara agora. O problema é que se esse for o cenário, poderíamos pensar que o Evangelho do perdão é um desenvolvimento tardio, produzido quando Jesus já estava "ausente", e sem conexão com o ensino do nazareno.

Os quatro senhores do vídeo discutem diversos detalhes deveras interessantes e pertinentes. Mas eu penso de forma bem simples, bem próxima ao que escutamos de John Piper por volta do minuto 15: Jesus não pregava de fato o evangelho em sua forma plena, como Paulo, simplesmente porque o evangelho em sua forma plena está centrado em algo que ainda estava para acontecer, sua crucificação e ressurreição. Sem esse acontecimento, o evangelho não existe enquanto algo já disponível, mas somente como algo que está tão iminente que já é, mas ainda está por chegar. (Antes de conhecer esse ótimo vídeo, eu andava pensando nesse sentido. Por isso, sugeri o mesmo em um comentário noutro blog: aqui.)

Com base nessa elocubração, eu tendo a pensar que a primeira ocorrência do termo "evangelho" no Evangelho de Marcos pode ser repensada. Diz-se geralmente que é a primeira vez que o termo aparece indicando certo "gênero do discurso" e não a boa notícia em si. Ou seja, o termo aqui já teria sido usado como o usamos frequentemente, para indicar um livro com tais e tais características, que conta fatos da vida de Jesus e alguns de seus ensinamentos. O fato se faz curioso se entendemos, como geralmente se entende, que o Evangelho de Marcos foi o primeiro a ser escrito. Eu escrevo um livro de tipo novo e já o nomeio com um nome que servirá para todo um gênero? Bom, minha hipótese é a seguinte: E se insistirmos em ler "princípio do evangelho de Jesus Cristo" não como indicando o começo do livro que está sendo escrito, mas como "princípio da boa nova de Jesus Cristo", tomando o termo "evangelho" exatamente como o tomamos em Paulo, com o significado de "boa nova", e reconhecendo que o autor reconhece que o que está por narrar em todo o livro não é o evangelho em sua plena forma, mas somente o princípio (fundamental!) dele? Se entendermos, como geralmente se entende, que as cartas de Paulo foram escritas antes, essa hipótese terá ainda mais peso.

Deixo essa hipótese como provocação. Alguém reage a ela? Fico no aguardo.

* Sobre a reconsideração também de Paulo proposta pela tal "nova perspectiva sobre Paulo" valerá outra postagem