domingo, 17 de agosto de 2014

Quem são "os judeus" (οἱ Ιουδαῖοι) no Evangelho segundo João? - Dois artigos sobre uma questão pertinente

por Cesar Rios

Quem são "os judeus" (οἱ Ιουδαῖοι) no Evangelho segundo João? Essa é sem dúvida uma pergunta instigante. É também urgente segundo alguns. Muitos temem que o autor do quarto Evangelho, o texto em si, e o cristianismo como um todo possam ser acusados de antissemitismo com base em uma leitura simples e impensada das duras colocações joaninas contra "os judeus". Sob a sombra da Shoá (evento mais popularmente chamado de Holocausto), somos quase que convocados a encontrar uma leitura que amenize e, se possível, retire qualquer gosto de oposição aos judeus como grupo étnico/religioso do Novo Testamento como um todo. No entanto, ainda que maus leitores de João tenham proporcionado um cenário propício para aquele absurdo genocídio, entendo que a questão deva ser revisitada, mas não como parte de uma agenda de reparação para com "os judeus" de hoje ou, menos ainda, o Estado de Israel. Estou certo de que devemos revisitar essa questão e repensá-la à exaustão simplesmente pela melhor compreensão que essa reflexão pode trazer a respeito de Jesus e desse maravilhoso texto que temos em nossas Bíblias. O que quero dizer é que, se empreendermos essa releitura com um objetivo previamente determinado (a absolvição dos judeus da acusação de terem sido anti-Jesus e responsáveis por sua morte sob Pilatos) e com outro objetivo subjacente também previamente determinado e, no fundo, verdadeiramente motivador (a absolvição dos cristãos da acusação de serem antissemitas e responsáveis pela morte de milhões de judeus sob Hitler), nossa releitura não fará total justiça ao texto, não alcançará o anseio do evangelista em sua integralidade, pois estará comprometida a fazer, antes, justiça à nossos próprios anseios. Jesus, João e os outros discípulos são todos "judeus". Isso é suficiente como convite (do texto mesmo!) a uma consideração mais detida da questão, sem que tenhamos que levar ao texto nossos problemas e nossos dilemas.

Pois bem, eu não me proponho a ensaiar nenhuma resposta aqui. Quero apenas apontar para duas opções completamente excludentes. Ou você gosta de uma ou da outra. Não há como conciliá-las.

Resposta 1) A crítica aos judeus é verdadeiramente direcionada às autoridades dos judeus. Isso teria surgido a partir da experiência da comunidade joanina, que supostamente teria sido excluída do convívio sinagogal pelo judaísmo a partir do suposto "concílio" rabínico de Javneh. É preciso ficar claro que essa proposta se constrói a partir da hipótese de que os eventos narrados no Evangelho segundo João têm mais relação com a comunidade em que o Evangelho foi redigido (tempo da enunciação, da narração) do que com o tempo de Jesus e dos acontecimentos relacionados com ele (tempo do enunciado, do narrado). Um bom exemplo dessa proposta está no seguinte artigo:


Resposta 2) A resposta 1 está baseada em hipóteses e reconstruções fracas, e não serve para todos os episódios do Evangelho em questão. Na verdade, o fato é que a expressão οἱ Ιουδαῖοι não deve ser lida como correspondente à nossa atual compreensão de "os judeus". Tratar-se-ia, por outro lado, de um termo relacionado complexamente com uma terra específica (Judeia) e com um povo específico dentro do amplo quadro de Israel. Para entender a restrição, deveríamos olhar não para o futuro (do narrado), que seria o tempo da comunidade joanina, mas sim para o passado, para o retorno dos exilados na babilônia e a definição de uma elite que se entendia como verdadeiramente ligada à verdadeira forma de ser "judeu", com a consequente exclusão de outros grupos, que habitavam a terra e também preservavam, em alguma forma, a fé herdada e o culto a YHWH. Esse grupo que se entendia como privilegiado era, obviamente, visto com ressalvas pelos demais. Eles tinham influência fora dos limites da Judeia, e adeptos que habitavam já na Galileia, por exemplo, mas eram estritamente centrípetos (e o Templo em Jerusalém estava no centro e era seu trunfo). Então, a crítica aos "judeus" não seria um enfrentamento com todo Israel (até porque os cristãos-judeus da comunidade joanina se entendiam como parte de Israel), mas com um grupo específico que se arrogava uma legitimidade exclusiva. Esse resumo simplificador só serve como convite, instigação. Para entender esse argumento, que está bem estruturado no seguinte artigo:


Em princípio, simpatizo-me muito com a reflexão do professor Daniel Boyarin. Tomando o Evangelho segundo João como um sistema de sentido fechado em si mesmo, isto é, considerando somente as ocorrências do termo nesse âmbito restrito, tendo a ser persuadido pela exposição. Mas ainda julgo que seria conveniente estudar o uso do termo em um espectro mais amplo de textos, para fora do Novo Testamento inclusive, testando essa nova proposta. Haveria consistência no uso do termo com esse sentido em outros autores? Se não, porque só João o utilizaria assim? Seria bem entendido? Por quem?

P.S. Se o arquivo de D. Boyarin não abrir automaticamente, faça "download" ou escolha a opção "visualizar com outro navegador". Por sinal, ele está hospedado na excelente página do prof. Eli Lizorkin-Eyzenberg, Jewish Studies for Christians.