quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

O que Maria e José foram fazer no Templo em Lucas 2.22-40?



Cesar Motta Rios


Pergunta de um amigo: "Seguinte, o que você pode me dizer de Lucas 2.22-40? Quais foram os rituais que José e Maria fizeram no templo? Jesus foi circuncidado neste dia? Quantos dias de vida ele tinha? Quem segurava ele era José ou Maria (como diz a tradição?)"


Vamos começar pela parte fácil. Não, Jesus não foi circuncidado nessa visita ao Templo. Ele já havia sido circuncidado ao oitavo dia de vida (cf. Lc 2.21), como Saulo e outras multidões de meninos judeus. A circuncisão, então, pode ter acontecido em Belém mesmo.

Pois então, o versículo 22 tem uma marcação temporal relacionada com o cumprimento dos “dias de purificação deles conforme a lei de Moisés”. Na Torah, encontramos que a mulher está impura por 7 dias após o nascimento de um filho do sexo masculino (Lv 12.2). Depois disso, ela tem que esperar pelo tempo da purificação para poder ir ao Templo. São mais 33 dias (Lv 12.4). Ou seja, Jesus tinha já 40 dias quando José e Maria foram com ele ao Templo.

Agora, vem a questão: O que foram fazer lá? Na verdade, o motivo é duplo! O texto apresenta um motivo no versículo 23 e outro no 24.

Primeiro, comento o motivo dado no 24: Maria precisa oferecer um sacrifício no Templo para voltar a estar cerimonialmente pura após o parto (Lv 12.7-8). É preciso lembrar que impureza não é o mesmo que pecado, assim como nem tudo que produz impureza é proibido! As pessoas costumam confundir esses dois sistemas, que se sobrepõem por vezes, mas que são diferentes.

Vamos ao motivo apresentado no versículo 23 por meio da citação de Ex 13.2. Essa ‘apresentação’ de Jesus só acontece por ele ser o primeiro filho (e do sexo masculino) de Maria. O que significa a ordem de o primogênito homem ser ‘santo para o senhor’ gera outro problema. Só os descendentes de Levi poderiam assumir funções sacerdotais. Só eles podiam ser completamente consagrados ao trabalho do Senhor como sugere o versículo. Jesus não era descendente de Levi. Portanto, outro caminho era seguido. O menino ‘não levita’ tinha que ser redimido do trabalho (que não poderia prestar!). Para tanto, o pai pagaria ao sacerdote a quantia de 5 shekels de prata (Nm 18.15). Há um pequeno problema cronológico aqui, pois o versículo agora mencionado determina que essa ‘redenção’ deveria ser feita 30 dias após o nascimento. Bom, como José e Maria tinham que se locomover para o sacrifício pela purificação dela, não me parece pouco razoável supor que tenham esperado para fazer tudo de uma só vez na ida Templo. (Isso já é bem hipotético e merece mais reflexão!) Cabe observar que essa 'redenção' continuou sendo praticada mesmo após a destruição do Templo (e até hoje ainda é). Os sacerdotes retiveram essa função mesmo sem o Templo, já que o rito não requer sacrifícios.

É difícil saber exatamente como seria esse ritual. Temos uma boa noção de como a praticaram os judeus desde o estabelecimento do judaísmo rabínico, mas não é seguro supor que a cerimônia fosse exatamente igual antes da destruição do Templo. Em princípio, é bem provável que, como nos períodos posteriores, o pai (José sendo considerado pai, claro) é que falasse ao sacerdote apresentando o filho primogênito antes de pagar por sua ‘redenção’. Sobre outros detalhes, tanto gestuais quanto verbais, é difícil dizer qualquer coisa. Não há registro contemporâneo ou anterior que nos auxilie.

Só mais um detalhe. Quem gosta da harmonização dos relatos dos Evangelhos, vai perceber que essa apresentação no Templo deve ter acontecido antes da fuga para o Egito (que não é relatada por Lucas). Mateus parece sugerir que a fuga ocorre às pressas logo que os magos do oriente vão embora. Então, eu acabo por supor que a ida ao Templo deve ter acontecido antes da vinda dos magos. Ou seja, José e Maria teriam saído de Belém a Jerusalém, e, depois, retornado a Belém, antes de partirem para Egito (Mateus) e, em seguida, Nazaré (Lucas). Nesse caso, os magos não deveriam aparecer nos presépios diante da manjedoura, já que teriam encontrado um menino Jesus já com quase dois meses (No mínimo! Mt 2.16 pode sugerir uma idade de quase dois anos). José deve ter tido tempo de arrumar uma instalação melhorzinha, não é?

Bom, sinto que, provavelmente, repeti o que todos já sabiam, mas era a resposta que tinha à mão por agora. Perguntas ou comentários que me façam aguçar a vista são sempre bem-vindos.